Estro amargurado

Eu quis compor os versos mais suaves,
Banhá-los todos com a luz da aurora,
fazê-los revoar tal como as aves
- cantoras livres pelos céus afora.

Eu quis fazer poemas brandos, leves,
Verter nas letras doces alegrias,
Eternizar todos momentos breves
E não deixar findar as sinfonias.

Ai...quanto eu quis viver em Primaveras,
Florir as almas com mimosas flores
E colorir os sonhos e quimeras
Com a magia viva dos amores!...

Sonhei fazer dos versos alabastros
Para exalar edênicos perfumes,
Vê-los fulgir com o esplendor dos astros
E tudo iluminar qual santos numes.

Mas quis também as ilusões aladas
Que, ingratas, passam lépidas, distantes...
Nunca terei a luz das alvoradas
Afugentando as sombras torturantes.

Da vida tenho as mais cruentas dores
E a mágoa de sentir que o amor existe,
Da natureza o Inverno e os seus rigores
E do destino a senda vil do triste.

Sempre de névoas cobre-se a ventura
Deixando-me no peito o desencanto
E, no relento, é fria a noite escura
Fazendo-me chorar sofrido pranto.

Como cantar do amor as alegrias,
Se a dor o coração roubou-me vivo?
Como compor as doces sinfonias,
Se da amargura o som ficou cativo?

Se a sós recordo aquele olhar divino
Que veio iluminar o meu outrora;
Se aquela voz o vento peregrino
Faz ressoar em mim, branda e sonora;

Se, assim, minha alma vai rememorando
Toda a ternura que me foi delírio,
Mas que este mundo vil foi arrasando
E transformando em sádico martírio,

Meu estro amargurado faz-se fel,
O que era amor sufoca-se na dor,
O que era manso torna-se revel
E o sentimento perde o seu fulgor...

Ângela Eveline B. M. Santos

                             

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