Fecha-se um ciclo
 

Minha vida, sempre muito certinha e organizada, de uns tempos para cá, parece que deu uma volta de 360 º e me perdi dentro dessa coisa que mina forças e o domínio de tudo, que é a perda, não de dinheiro, isso eu não dou a mínima mesmo, trabalho para ter o necessário para pagar minhas contas, o que me deixa sem chão é a perda do meu alicerce de viver, ou seja, o afastamento das pessoas que amo. 

A mais ou menos dois anos, quando tudo parecia estar nos eixos, perdi meus sogros, não bastando à ida deles, pessoas que fizeram parte constantemente da minha vida e da dos meus filhos, foi uma surpresa quando Deus levou meu pai há um ano e meio. Com 78 anos e senhor de todas as suas funções vitais, foi acometido por uma embolia pulmonar e internado em seguida, no terceiro dia, quando esse quadro parecia controlado, uma nova embolia aconteceu e ele se foi, nos deixando aturdidos, sofridos e órfãos daquele que era nossa razão maior de orgulho, um grande pai, o nosso pai! 

Quando comemoramos os 50 anos de casados dos meus pais, foram oito meses antes do falecimento dele. Meus pais sempre foram um, o complemento do outro, mas minha mãe sempre se sobressaiu pela matriarca e fortaleza que sempre foi, costumo dizer que, quiçá, eu fosse metade daquela mulher que esbanjava vida e em quem meu pai confiava se amparava e compartilhava todos os momentos da sua vida, a partir de um casamento que foi necessário a fuga dela com ele, por ele ser um homem moreno e a família dela ter olhos azuis. Enfim, provaram que o sangue que corre nas veias é um só e que o amor não tem cor; mais tarde recebendo a benção dos meus avôs, maternas e paternas porque, por um lado ter preconceito, o outro tomou as dores e ficou contra também diante do que expus, já devem imaginar o que aconteceu depois da partida do meu pai. Acho que metade da minha mãe foi junto e metade queria viver por nossa causa. Não mais sorriu e nunca mais fez nem um café, sempre afirmava que não tinha mais sentido sua ida na cozinha, o que nos deixava apreensivos, mas entendíamos, uma vez que nós mesmos, os filhos já não víamos sentido irmos a aquela casa, local onde fomos criados e se o fazíamos, era estritamente por ela. 

E minha mãe começou a definhar, palavra forte, mas oportuna para o que aconteceu. Apareceu uma cirrose não identificada e quando a levamos ao medico ela estava apenas com 20% do fígado funcionando. Nossa vida a partir daí foi em hospitais, em consultórios médicos e em laboratórios, uma vez que não se sabia por obra de que e de quem minha mãe havia pegado essa doença. O certo seria ela conviver muitos e muitos anos com a doença, fazendo todos os procedimentos recomendados e não morrer dela. 

Não diria que ela não lutou, pelo contrario, sempre tomou todos os medicamentos e fez exames diariamente, o que deprime o doente, mas ela foi sempre obediente e muito firme quanto a isso. Mas existiu algo que não batia com tudo isso, o organismo não reagia e a cada dia, durante cinco meses, ela amanhecia mais fraquinha, principalmente depois da parassíntese, que é a retirada do liquido causado pela doença devido ao não funcionamento do fígado. Ela foi perdendo órgão após órgão, vindo a falecer de falência múltipla dos órgãos.  No dia anterior à morte dela, com total consciência e já no quarto por nada mais poder ser feito na UTI, ela me disse: Fanete, eu não queria ir, mas agora não tem mais jeito; engoli a dor, olhei firme e falei – mãezinha, nós só vamos quando Deus determina, eu não sabia que essa determinação era no outro dia. 

Aceitei a morte dela sim, ela estava sofrendo tanto! Era tão cruel a vermos daquela forma! Era tão duro dar aqueles plantões junto a ela! Tínhamos feito uma maratona de filhos em volta dela, quando um deixava o plantão, o outro pegava e assim cumprimos sua vontade de estar sempre rodeada por um de nós. 

No dia que aconteceu a partida, eu a entreguei a Deus e agradeci a mãe que Ele nos deu e o tempo de convívio, mas ao escrever esse texto/relato, não imaginava que ainda está tudo sangrando no meu coração e peço perdão a Ela, a Deus porque o que quero lembrar não são dores, mas tudo de bonito, verdadeiro, que Ela nos deixou. 

O porquê do texto?

Conversando com uma pessoa, ela me aconselhou a escrever sobre isso, acho que por saber o quanto sou ligada aos meus pais, pois eles jamais morrerão dentro do meu coração; também por generosidade porque sabe que colocando isso em letrinhas, alivia e até por experiência para quem chegar até aqui; tipo, ame muito, cuide, esteja junto dos seus pais por que nunca se sabe quando eles se despedirão para sempre do corpo físico deles. 

Não sei se meus filhos sentirão tanto quando eu me for desse chão, o que sei é que a dor deles não será menor que a minha, assim como a nossa não foi menor do que a da nossa mãe ao nos deixar. 

Fecha-se um ciclo, a natureza cumpriu o seu papel e eu vou seguindo de encontro a um futuro que sei, essa dor se repetirá porque chegará o tempo em que meus filhos também passarão pelo doloroso, mas natural aprendizado da perda. 

Por Fanete Costa


                                   

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